Hoje discutiremos dois assuntos importantíssimos, pouco discutidos
entre as pessoas, porém superimportantes na saúde, qualidade de vida e
autoestima dos idosos: a incontinência urinária e a infecção urinária.
A incontinência e a infecção urinária são ocorrências comuns no
processo de envelhecimento, sendo motivos de grande constrangimento na
maioria das vezes.
Nesse contexto, inicialmente, é importante que se analise a razão
para a ocorrência da perda involuntária de urina, pois muitas vezes, o
problema é reversível e o tratamento é simples. Problemas motores, como
dificuldade para caminhar, dores e rigidez de articulações, medo de
cair, banheiro muito distante, são fatores que podem contribuir para
perda de urina, que muitas vezes é confundida com incontinência urinária
(perda involuntária de urina). É preciso sempre se atentar para os
fatores citados, porque, se presentes, o problema pode significar uma
falsa incontinência (pseudoincontinência), neste caso, reversível. Como
solução, basta para isso, criar condições que facilitem o acesso ao
banheiro, para que a pessoa chegue até lá com segurança.
Além disso, observe o intervalo de tempo entre uma micção e outra,
pois a demora em ir ao banheiro também pode propiciar a incontinência e a
infecção urinária. Há casos em que mesmo a pessoa sendo independente e
autônoma deve fazer uso de fraldas geriátricas em determinado período,
obedecendo-se os intervalos entre uma micção e outra. Assim como há
casos de pessoas que por algum quadro de saúde necessitam de
acompanhamento periódico ao banheiro. Neste último caso, estas pessoas
precisam fazer uso de fraldas geriátricas ininterruptamente, trocadas a
cada três horas, ou antes, se necessário, após higienização íntima.
Sugere-se também que, no dia a dia, observem-se os sinais de
infecção urinária: como baixo volume urinário, mesmo com oferta adequada
de líquidos; dificuldade para urinar (disúria); sensação de queimação à
micção (ardor ao urinar); urina concentrada (escura) com odor fétido,
mudanças súbitas de comportamento. E diante de qualquer um destes sinais
ou sintomas, contatar um médico.
As orientações de cuidados com pacientes incontinentes são numerosas e, por esta razão, serão abordadas a seguir alguns procedimentos:
1. Nas trocas de fraldas, sempre observe as
condições da pele e mucosas. Verifique se há assaduras, presença de
manchas brancas, avermelhadas, secreções, sangramento, etc. Se notar
qualquer anormalidade, o médico deverá ser comunicado;
2.Troque peças íntimas com frequência para evitar que fiquem
molhadas, não esqueça que a acidez da urina pode provocar pruridos
(coceiras), assaduras e lesões na pele;
3.Providencie para que, a cada troca, seja
realizada uma higiene íntima completa, ou seja, deve-se lavar a região
dos genitais com água e sabonete neutro. Não use talco na região de
genitais, água e sabonete são suficientes. Após a higiene, seque bem a
área sem esfregar a toalha, faça pressões suaves, utilizando-se de
toalhas higiênicas macias. Lembrem-se, as infecções urinárias de
repetição (especialmente em senhoras) têm sido comprovadamente causadas
pela má higienização. E não se esqueçam de que o hábito de, após a
micção ou evacuação,não utilizar o papel higiênico de trás para frente é
de extrema importância, pois impede que haja uma contaminação fecal
gerada pela ascensão uretral de bactérias presentes na flora intestinal;
4. Os cuidados com a higiene íntima devem ser mais
rigorosos em pessoas que usam fraldas diuturnamente (ao longo do dia).
Após evacuação, a fralda deve ser retirada cuidadosamente da frente para
trás removendo o excesso de fezes. Sequencialmente, lavar toda a região
íntima (uretral, perineal e anal) usando água e sabonete neutro. Não
usar lenços higiênicos, este material deve ser utilizado apenas quando o
paciente incontinente está fora de sua casa e não pode ser higienizado
com água e sabão;
5. Pessoas que têm uma dieta adequada e saudável
costumam ter seus hábitos intestinais regulares. Assim, é muito fácil
controlar a evacuação, mesmo naqueles que apresentam incontinência
fecal, basta para isso, observar seu horário habitual e conduzi-lo ao
banheiro com antecedência;
6. Em casos de pessoas que tem demência, a
agitação, a irritação e a alteração de humor, muitas vezes significam
que a fralda precisa ser trocada. Permanecer com a fralda molhada ou com
fezes não é confortável para ninguém e, a pessoa com demência, apesar
de muitas vezes não conseguir se comunicar verbalmente, pode demonstrar o
desconforto que está sentindo por meio de alterações de comportamento.
Dessa forma, é comum ver pacientes rasgando e arrancando a fralda que os
está incomodando.
Por fim, caros leitores, esperamos que estas abordagens, apesar de
simples e sucintas, sejam úteis e possam ajudar aos que necessitarem. Em
caso de dúvidas, aconselhamos a procura por atendimento médico, pois
assim serão realizados exames físicos e laboratoriais para a
identificação e tratamento da incontinência e infecção urinária.
Texto por:Thais Bento Lima da Silva, Tiago Ordonez e Evany Bettine de Almeida (Diretores da Associação Brasileira de Gerontologia). Oferecemos fraldas e absorventes geriátricos com preços acessíveis(Abena, Protfral, Bigfral, Plenitud, e outros...) visite nosso website: www.mundogeriatrico.com.br
Evento é aberto ao público e será realizado no Hospital Metropolitano da Serra
Visando a qualidade de vida do idoso, o Hospital Metropolitano
promoverá, nesta quarta-feira (04), às 10 horas, a palestra “Pessoa
idosa que vive só: conquista ou abandono?”. O evento é aberto ao público
e será realizado no auditório do Espaço Metropolitano de Eventos, na
torre anexa à instituição de saúde.
A palestra tem como objetivo debater o tema e esclarecer as dúvidas
sobre a independência durante a velhice, já que o idoso que vive
sozinho, por exemplo, precisa de acompanhamento médico e de cuidados
específicos.
Podem participar pessoas com mais de 60 anos, familiares de idosos e
todos aqueles que queiram adquirir mais conhecimento a respeito desse
período da vida, como profissionais de saúde e gestores de serviços
voltados para esse grupo.
São disponibilizadas 90 vagas, e as inscrições devem ser feitas pelo telefone (27) 2104-7089 ou pelo e-mail: lmenezes@metropolitano.org.br
Cuidados
De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD), do
IBGE, o número de pessoas com mais de 60 anos que moram sozinhas
triplicou, passando de 1,1 milhão para 3,7 milhões, representando um
aumento de 215%, entre 1992 e 2012.
Segundo a coordenadora da Unidade Geriátrica do Hospital
Metropolitano, Lívia Terezinha Devens, mesmo que o idoso opte por viver
sozinho e se sinta capaz disso, ele não pode deixar de realizar exames
frequentemente para verificar se a saúde está em dia.
“Quanto mais envelhecemos, maior se torna o risco de nos tornarmos
frágeis, seja pelo próprio envelhecimento – que altera progressivamente a
função dos órgãos, tornando-os menos resistentes –, ou pelas doenças.
Por isso, é necessário passar por avaliações clínicas regularmente”, diz
Lívia Terezinha Devens.
A geriatra também afirma que o idoso não deve descartar a ajuda dos
familiares ou de um auxiliar. “Se uma senhora de 74 anos mora sozinha e
tem hipertensão, doença renal leve e deficiência visual, ela pode estar
bem fisicamente e morar só, mas precisará de ajuda para fazer as
compras, limpar a casa e preparar os alimentos”, exemplifica Lívia.
Palestra “Pessoa idosa que vive só: conquista ou abandono?”
Data: 04 de abril (quarta-feira) Horário: 10 horas Local: Espaço Metropolitano de Eventos (Torre anexa ao Hospital Metropolitano, localizado na Serra) Endereço: Avenida Eldes Scherrer de Souza, 488 – Civit II, Serra – ES | Ed. Metropolitano Tower – 1º andar Inscrições: (27) 2104-7089 ou pelo e-mail lmenezes@metropolitano.org.br
As quedas são responsáveis por mais de um terço dos acidentes
domésticos.
Este risco aumenta de acordo com o avanço da
idade.
O Ministério da Saúde estima que, pelo menos uma vez por ano, cerca
de 30% dos idosos irão cair. Essas ocorrências tendem a crescer entre as
pessoas com mais de 85 anos, podendo chegar a 51% nessa faixa. Junto
com as quedas, os riscos de fraturas também aumentam: de 5% a 10% das
quedas resultam em ferimentos mais graves nos idosos.
Dois fatores influenciam para que os acidentes ocorram com maior
frequência na terceira idade. Um está relacionado às alterações
fisiológicas. Visão, audição, postura, equilíbrio e locomoção acabam
sofrendo limitações com o envelhecimento e podem prejudicar a
estabilidade do idoso.
O outro fator tem a ver com o ambiente em que o idoso vive. Cerca de
70% das quedas ocorrem dentro de casa. Por isso é importante ficar
atento a alguns cuidados que podem ser tomados para minimizar a
ocorrência de quedas.
Veja como deixar os ambientes da sua casa mais seguros:
– O chão não pode ser escorregadio;
– Não deve haver obstáculos no caminho, como brinquedos, tapetes e móveis baixos;
– Ao lado da cama do idoso deve haver algum objeto luminoso para que
ele consiga acender a luz e ver o ambiente antes de se levantar, assim como uma barra de apoio para facilitar os movimentos;
– O chão do banheiro não deve ficar molhado, dentro do box deve
haver tapetes anti-derrapantes para evitar que o idoso escorregue;
– Se for possível, coloque barras de segurança nos banheiros: uma
dentro do box, para que o idoso possa se segurar durante o banho, e
outra ao lado do vaso sanitário, para que ele possa apoiar na hora de
sentar e levantar.
– Outra dica é colocar uma cadeira debaixo do chuveiro para que o idoso possa se sentar.
Estes e outros produtos são oferecidos pelo Mundo Geriátrico, visite nosso website para mais informações:
Cada meia hora adicional de atividade como
colocar plantas em vasos e passear com o cachorro está associado a uma
redução de 17% do risco de falecimento.
Algumas horas por semana de atividade física,
mesmo de baixa intensidade, como passear ou se dedicar à jardinagem,
podem diminuir o risco de morte nos homens idosos, sugere um estudo
publicado nesta terça-feira (20).
O volume total de atividade física está associado a um menor
risco de morte por qualquer causa, asseguram os autores do estudo
publicado na revista médica British Journal of Sports Medicine.
O estudo mostra que cada meia hora adicional de atividade de
baixa intensidade por dia (colocar plantas em vasos, passear com o
cachorro, etc.) está associado a uma redução de 17% do risco de
falecimento.
Meia hora adicional de atividade moderada ou intensa reduz ainda mais o risco, em até 33%.
“As diretrizes britânicas e americanas sobre a atividade
física não mencionam [até agora] nenhuma vantagem de uma atividade de
intensidade leve”, indica à AFP Barbara Jefferis, epidemiologista da
University College London.
“Mas os resultados do estudo sugerem que todas as atividades, não importa sua intensidade, são saudáveis”, explica.
O estudo teve início em 1978 com cerca de 8.000 homens de entre 40 e 59 anos de 24 cidades britânicas. Entre 2010 e 2012, os 3.137 sobreviventes passaram por um
exame médico e responderam a perguntas sobre seu estilo de vida e
qualidade de sono. O estudo acabou se concentrando em 1.181 homens que usaram
um aparelho de acompanhamento do volume e intensidade do exercício
físico durante sete dias.
Esses homens, de em média 78 anos, foram submetidos depois a
análises periódicas durante cinco anos, um período em que 194 deles
faleceram. Os autores lembram que este tipo de estudos de observação não permitem estabelecer formalmente uma relação de causa e efeito.
Além disso, não está claro se as observações desse estudo
podem ser aplicadas às mulheres idosas, embora a priori não haja motivos
para que os resultados difiram, acrescentam os pesquisadores.
Adalia, Orlando, Bernadete e Léa falam sobre a importância de seus mascotes em um momento especial da vida.
Adalia e Luma: "Ela salvou a minha vida", diz a aposentada, lembrando o dia em que sofreu um AVC - Jefferson Botega / Agencia RBS
A
bolotinha branca cativou Adalia Ribeiro de Oliveira pela sapequice: de
toda aquela ninhada da raça maltês, era a mais arteira. Virava o pote
d'água, molhava-se, por vezes até entrava no pote. Hoje com oito anos, a
cadela Luma, com uma franja que lhe cobre os olhos, é um grude só com a
aposentada. Acomoda-se no colo da dona para ver televisão, chora quando
fica sozinha, pede pão na hora do lanche da noite. Além de todos os
predicados do típico cão companheiro, Luma se destaca por uma façanha.
Anos
atrás, em uma manhã de domingo, a empresária Kátia Esteves, 54 anos,
sobrinha e vizinha de Adalia, percebeu os latidos incessantes de Luma.
Deu-se conta do adiantado da hora – era perto do meio-dia –, muito tarde
até para os padrões da idosa, que gosta de dormir bastante. Devido ao
alto volume da TV, à conversa da família e à algazarra dos outros
cachorros, Kátia não sabe precisar por quanto tempo Luma tentou chamar a
atenção até que alguém finalmente reagisse a seu alerta. Ao se
aproximar da casa da tia, a sobrinha enxergou a mão de Adalia através do
vidro da porta, perto do chão – depois de passar mal e cair, a senhora,
sem conseguir falar, foi se arrastando até a abertura, tentando sair em
busca de socorro. Luma latia em desespero, olhando para Adalia e para a
porta, alternadamente. Kátia teve de quebrar o vidro com uma ferramenta
para conseguir entrar. Levada para o hospital às pressas, Adalia passou
40 dias internada, recuperando-se de um acidente vascular cerebral
(AVC). A rapidez do atendimento foi determinante para o desfecho.
–
Como é que pode, né? Aquilo era um pedido de socorro – surpreende-se
Adalia, hoje com 77 anos, ao recordar o episódio, afagando a barriga
cor-de-rosa da mascote, que repousa em seu colo. – Ela salvou a minha
vida.
Enquanto
a aposentada esteve no hospital, as duas sofreram. Em casa, Luma se
mostrava abatida e com pouco apetite. No Beneficência Portuguesa, Adalia
enfrentava dificuldade em vencer o tempo.
– Um dia significava um mês para mim – descreve.
Luma
despertou do desânimo ao ouvir a voz de Adalia chegando no dia da alta.
Correu até o carro para recepcioná-la, latindo sem parar. A relação
entre ambas se estreitou ainda mais. Vigilante, a cadela mantinha-se ao
lado da aposentada, que passou por sessões de fisioterapia para
recuperar os movimentos. Luma só tolera o afastamento da dona em um
único momento do dia.
– A mãe vai almoçar, tá? – avisa Adalia ao sair em direção à residência da sobrinha.
A
cadela parece compreender que a saída será rápida, que a "mãe" não vai
longe, e não faz lamúrias. Na hora de deitar, Luma ocupa um travesseiro
ao lado de Adalia na cama. – Ela ronca? – questiona a repórter.
– Não – responde Adalia.
– E a senhora?
– Não sei, ela nunca reclamou – diz ela, rindo. – Somos boas de cama!
Adalia durante um passeio com a maltês Luma - Jefferson Botega / Agencia RBS
Além
de Adalia e Luma, ilustram esta reportagem outras três duplas que
mantêm uma afinada parceria. Orlando, Bernadete e Léa também são idosos
que moram sozinhos com seus animais de estimação – Ugly, um felino preto
resgatado da rua, o cão pequinês Lorde e a gata persa Kika. Com uma
população cada vez mais longeva e configurações familiares variadas –
por exemplo, os casais têm menos filhos ou até não os têm, e as uniões
já não duram para sempre –, não é incomum envelhecer assim. Adalia é a
remanescente de um modelo hoje incomum: solteira, teve como ocupação
cuidar dos pais.
O limite é
dado pelo corpo – em certo ponto, é natural que o idoso necessite da
companhia e do auxílio de familiares ou outros cuidadores para dar conta
das tarefas do dia a dia e para viver em segurança, evitando acidentes e
dispondo de auxílio rápido no caso de uma emergência. Com o avançar dos
anos, é cada vez mais desafiador manter a autonomia e a independência.
É
mais fácil encontrar mulheres morando sozinhas na terceira idade. Além
de a expectativa de vida delas ser superior – 79,1 anos contra 71,9 dos
homens, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE) –, elas tendem a lidar melhor com a separação e a viuvez, não
necessariamente partindo para outro relacionamento, de acordo com a
observação de especialistas que lidam com essa faixa etária. Elas se
ocupam de seus afazeres e seus afetos, enquanto eles são menos
tolerantes à solidão. ZH comprovou na prática a dificuldade de encontrar
exemplos masculinos para estas páginas – surgiram muitas histórias de
mulheres vivendo com seus mascotes, mas não de homens.
–
Vou te dizer uma coisa: homem sozinho fica louco – confidenciou um
viúvo de 89 anos sondado para uma entrevista, ao justificar que não se
encaixava no perfil pretendido porque havia arranjado uma nova
companheira.
Os bichos não
substituem as imprescindíveis relações com parentes e amigos, mas
preenchem uma lacuna importante na rotina. Com frequência, o velho volta
a exercitar habilidades elementares de cuidado e responsabilidade com o
outro ao tomar conta de um gato ou de um cachorro, décadas depois de
ter feito isso com os filhos e os netos quando pequenos. O idoso que já é
avô vira "pai" ou "mãe" novamente. Em casos de depressão, muitas vezes o
animal dá novo sentido à existência.
–
Ter um animal que traga afetividade, convívio, interação é bom. Diminui
a sensação de solidão, melhora o humor, dá uma função para o idoso. Ele
passa a ser útil e necessário para outro ser vivo e tem, em
contrapartida, o carinho e o afeto do animal. É uma razão para continuar
vivendo – avalia Eduardo Garcia, geriatra e pneumologista da Santa Casa
e professor da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto
Alegre (UFCSPA).
Orlando e Ugly: hoje viúvo, o aposentado liberou o gato para dormir na cama e subir na pia - Jefferson Botega / Agencia RBS
"É velho que nem eu!"
Orlando
Schnell, 77 anos, já era muito apegado a Ugly, 15 anos, quando a viuvez
o aproximou ainda mais do bichano. Elza, que morreu de câncer em 2014,
aos 73 anos, também gostava do mascote, mas lhe impunha limites: nada de
entrar no quarto do casal, dormir na cama, subir na pia. As proibições
foram sendo revogadas pelo aposentado. O felino agora se deita junto de
Orlando para a sesta, aconchega-se para ver os jogos do Grêmio e do
Inter – diz-se que também torce pelo Tricolor e seca o rival – e tem um
banquinho junto ao balcão da cozinha para lhe facilitar a subida rumo ao
pote de água, sobre a pia. Aonde Orlando vai, Ugly vai atrás.
– Ele é um grude comigo – conta o aposentado.
Para
não ficar longe do pet, Orlando resiste em viajar. Prefere sair nos
dias de semana, período em que o gato terá a companhia da empregada
doméstica e também contará com as visitas de Adriana, 45 anos, filha de
Orlando, que trabalha como pet sitter.
– Meu pai e o Ugly são meus clientes mais difíceis – diverte-se ela.
Adriana
procura seguir todas as determinações. Além de ração, Ugly gosta de
carne, frango, atum, presunto e requeijão. Há certas peculiaridades a
serem respeitadas na hora de servir alguns dos acepipes. A carne tem de
ser colocada em papel-alumínio ou guardanapo, e o requeijão, sobre uma
bolacha Maria. Outra nota importante: não é qualquer requeijão, e há de
se promover um revezamento de rótulos, porque ele enjoa.
– Hoje em dia estou dando Santa Clara. Antes ele gostava do Elegê – especifica Orlando, provocando gargalhadas na filha.
Aonde Orlando vai, Ugly vai atrás - Jefferson Botega / Agencia RBS
Ugly
chegou a Orlando pelas mãos de Adriana. Foi ela quem resgatou o felino
da rua e, quase de imediato, decidiu ficar com ele. O gato mudou de mãos
após o veraneio de 2003, quando passou uma temporada na residência de
praia dos Schnell, em Imbé. Com uma vida atribulada, Adriana, também
jornalista, lamentou a má sorte do bicho com a retomada da rotina na
cidade: – Coitado, agora ele vai para um apartamentinho pequeno... Ficar sozinho o dia inteiro...
A
troca então se oficializou: o pretinho foi para o apartamento de
Orlando e Elza, mais amplo, onde teria companhia constante. Para
Orlando, Ugly é "meu guri" e "cara" – há alguma resistência quanto ao
nome, que o aposentado considera um tanto injusto. Em inglês, ugly
significa "feio", alcunha divertida que parecia adequada ao filhotinho
esquisito quase 16 anos atrás.
– Na época em que eu o conheci, ele não era feio – reclama o aposentado.
Quando
jovem, Ugly se aventurou com a gataria da vizinhança no Litoral – um
dia, misturou-se a outros gatos pretos, e até hoje a família brinca não
saber se o gato que voltou para casa era o mesmo que saiu –, caiu na
piscina, escalou muros altos, derrubou árvores de Natal. Agora, está
mais quieto, resignado às limitações da velhice. Apesar de dois
episódios recentes – um resfriado e uma alergia de pele –, tem boa
saúde. De tempos para cá, vem manifestando medo de temporais – em noites
de tormenta, mia sem cessar, até que o dono o acalme. Orlando consultou
uma tabela que equipara a idade dos felinos à dos humanos e descobriu
que Ugly soma praticamente os seus mesmos 77 anos.
– É velho que nem eu! – graceja.
Bernadete e Lorde: cachorrinho é a companhia de todas as horas da aposentada, que é cega - Jefferson Botega / Agencia RBS
Parceria nas leituras
Localizar
uma poça de xixi no chão é uma das tarefas mais difíceis no dia a dia
de Bernadete Vidal, 67 anos. Ela se guia pelo cheiro, aproximando-se
devagar, sempre sob a tensão de calcular mal e pisar em cima do que
Lorde, nove anos, não conseguiu segurar para fazer na rua.
– Ele fez xixi... fez, né? Tá sentindo?
De
alguma maneira que encanta e emociona a aposentada, Lorde aprendeu que,
com ela, a comunicação precisa incluir sons ou contato físico. Não
basta abanar o rabo ou "fazer bocão". Quando chove e o passeio é
suspenso, o cão pequinês se queixa para a dona – rosna, ronca, se
esfrega ou se encosta nela, demonstrando insatisfação. Bernadete então
orienta o mascote a se aliviar sobre folhas de jornal. Já foram muitos
os incidentes com o "número dois": desavisada, a idosa esmagava cocôs do
cachorro pelo apartamento onde vivem no bairro Cristal, em Porto
Alegre.
– Dizem que dá sorte, que é dinheiro! – comenta ela, rindo. – Tô rica!
Bernadete
é cega de nascença. Vítima de catarata, enxergava muito pouco até que,
adolescente, passou a não ver mais nada. Suas recordações são, mais do
que imagens, sensações de uma infância ao ar livre em Cachoeira do Sul:
subir em árvores, comer ovos crus direto do galinheiro, colher laranjas e
cenouras, brincar com cachorros, gatos, porcos e ovelhas. Uma de suas
lembranças mais ternas é da avó Lídia servindo café da tarde para os
cães da família, preenchendo os pratinhos com pedaços de pão embebidos
em café com leite.
– Sempre
fui "bicheira" – define Bernadete, que se graduou em Direito, participou
da fundação da Associação de Cegos do Rio Grande do Sul (Acergs) e foi
vereadora da Capital por dois mandatos, nos anos 1970 e 1980.
Lorde, nove anos, é da raça pequinês - Jefferson Botega / Agencia RBS
Primeiro
existiram os mascotes Banzé, Fofinho e Brum-Brum – este último, um
pequinês batizado em função do ronco que lembrava o barulho de um motor,
chegou a Bernadete depois de ter a carreira de modelo de exposições
abreviada pela perda de um dente. Lorde veio com 70 dias de vida.
Escondia-se pelo apartamento, e Bernadete precisava pedir ajuda para
encontrá-lo. O cãozinho era um furacão: roía cadeiras, poltronas, a
cama. Alguns móveis se salvaram porque a dona os protegeu com
plástico-bolha.
– Adoro essa coisa peluda para afofar. Eu tenho em casa uma bola de pelo e de alegria – derrete-se a aposentada.
Um livro infanto juvenil, O Pequeno Lorde,
de Frances Burnett, serviu de inspiração para o nome do animal. A
literatura ocupa grande parte do dia de Bernadete. No computador, ela
armazena títulos digitalizados, consumidos com o auxílio de um leitor de
tela (o software narra o conteúdo dos arquivos de texto). Adora obras
policiais, de suspense e históricas. Lorde fica por perto, descansando e
curtindo o ar-condicionado. Certa vez, uma história o intrigou – era um
enredo que se desenrolava na Inglaterra, e a menção a personagens com
títulos honoríficos atiçava o cachorro.
– A narração falava tanto em "lorde" que ele começava a resmungar, como quem diz: "O que querem comigo?" – lembra Bernadete.
Quando
ela veste calças compridas e casaco, o cão entende que é hora de sair.
Ela o chama para botar a coleira e ele vem. Bengala na mão direita, guia
na esquerda, a tutora parte para a rua. E o pet faz sucesso: ganha
afagos e é solicitado para fotos. A aposentada por vezes preocupa os
passantes, que a advertem sobre o intenso fluxo de carros na Avenida
Icaraí:
– As pessoas acham
que os cegos andam perdidos no mundo, que não sabem onde estão. Caramba,
se estou andando na beira da calçada é porque o cachorrinho quer fazer
xixi!
Em duas situações, as
voltinhas renderam sustos. Uma vez, tentaram lhe roubar Brum-Brum.
Bernadete estava sentada na padaria quando o ladrão retirou o cachorro
da guia. Solto, o cão se aproximou da dona, e uma funcionária do
estabelecimento impediu que o crime se concretizasse. Com Lorde,
aconteceu algo semelhante: em vez de um larápio, era um vizinho querendo
pregar uma peça. De repente, Bernadete sentiu a guia frouxa. Pensou que
a proteção tinha se arrebentado, até entender que o mascote estava no
colo do vizinho. – Quer me matar do coração, criatura? – protestou.
A
aposentada descreve a aparência física do "docinho da mamãe" com base
no que lhe dizem. Sabe que a pelagem tem múltiplas cores: vai do preto
ao quase branco, passa pelo cinza, tendo também toques de amarelo e
bege. Mas o essencial ela própria consegue definir, sem auxílio:
– É o meu companheirinho cão. Não imagino a vida sem ele.
Léa e Kika: saúde da gata de 16 anos preocupa a dona. "É como se fosse um filho", diz a aposentada de 85 anos - Jefferson Botega / Agencia RBS
A angústia da finitude
Os benefícios da convivência
entre idosos e pets são inegáveis, mas é preciso prestar atenção a
aspectos que podem provocar sofrimento em uma fase da vida já
fragilizada por outros fatores. Coordenadora do Núcleo de Idosos do
Estudos Integrados de Psicoterapia Psicanalítica (Esipp), a psicóloga
Nara Castilhos destaca que um mascote de estimação gera custos, o que
pode comprometer uma quantia significativa de um orçamento já reduzido
após a aposentadoria ou a viuvez.
É
provável que o dono tenha de lidar, à certa altura, com a morte do
animal. Em muitos casos, a dor é tão intensa quanto aquela sentida no
momento em que um amigo ou familiar morre. O envelhecimento do idoso
também é inquietante – encarar a finitude da própria vida pode provocar
angústia. No caso de pessoas que vivem sozinhas com seus bichos, surge a
preocupação sobre quem vai cuidar do animal quando elas não estiverem
mais presentes.
– O medo
provocado pela morte faz parte do ser humano: em relação a outros seres
humanos, em relação aos animais e em relação a si próprio. É uma questão
básica. Para lá vamos todos, só não sabemos quando – comenta Nara.
Nos
encontros semanais com os integrantes do grupo de terceira idade que
coordena, a psicóloga está habituada a ouvir relatos sobre o quão
benéfica é a presença de um mascote. Uma de suas pacientes, de 80 anos,
ainda guarda vivas e positivas lembranças de um cachorro que faleceu
três décadas atrás.
– Ela
fala de forma saudosa, mas é uma lembrança feliz daquele amor – relata
Nara. – Há pessoas que têm um afeto especial pelos bichinhos. Criar
vínculos é vida, é troca. É bom em qualquer idade.
Léa e a persa Kika no pátio do apartamento onde vivem, no bairro Bom Fim, em Porto Alegre - Jefferson Botega / Agencia RBS
Léa
Rohde, 85 anos, anda preocupada com Kika. A gata de 16 anos sempre foi
supersaudável, nunca ficou doente ("Só teve pulga!"), mas, nos últimos
tempos, parece não estar desfrutando de sua melhor forma. Desconfiada de
que a persa pudesse ter catarata, por conta da aparência esbranquiçada
do olho, a aposentada procurou um veterinário especializado em
oftalmologia. O médico descartou a suspeita, mas receitou um colírio
que, na opinião de Léa, deixou o bicho mais indisposto. À mesma época,
Kika começou a recusar comida, esconder-se pelos cantos e apresentar
dificuldades para caminhar – as patas traseiras pareciam fraquejar. – Isso aí é da idade – tentou tranquilizá-la um dos filhos.
O
mau estado geral do animal adiou a entrevista mais de uma vez. Léa
também alegava não se sentir bem: dores pelo corpo, uma crise de
labirintite.
– Sabe como é
uma velha de 85 anos, né? – justificou a viúva ao telefone. – Mas o que
me preocupa é ela. Não quero que ela sofra de maneira nenhuma.
Acostumada
a viver apenas com Léa, Kika não gosta da presença de outros animais ou
pessoas. Incomoda-a, especialmente, a voz de homens – ela se retira do
ambiente se por acaso aparece um visitante do sexo masculino.
– Não sai de casa! Nesse ponto, é muito enjoada: não quer conhecer ninguém. Só gosta de mim – comenta Léa.
Nas
duas visitas da reportagem, Kika se comportou bem. À exceção da
evidente perturbação causada pelos cliques da câmera, que interrompeu
seu sono em uma tarde fria, pareceu ignorar a presença dos estranhos.
Léa contou a história de sua mais dedicada companheira desde o
princípio: mostrou a certidão de nascimento, as recomendações anotadas
sobre os cuidados iniciais, a foto exibindo a pelagem exuberante ainda
nos primeiros anos de vida. Houve pelo menos duas tentativas de lhe dar
um companheiro: Kika não aceitou um gato angorá (que foi revendido) e
não deu bola para um hamster (que morreu em seguida).
Léa
evita se ausentar. Quando viaja, procura ir num dia e voltar no
seguinte, ainda que uma das netas se comprometa a cuidar do animal. Nas
raras vezes em que sai, a aposentada deixa o pensamento em Porto Alegre:
imagina a gata vagando triste pelo apartamento do bairro Bom Fim,
procurando pela tutora. Até as idas ao supermercado são rápidas.
– Ela me preenche muito. É como se fosse um filho.
Ultimamente,
parece que o bicho está mais próximo. Léa gosta de ler antes de dormir,
hábito que a leva a adentrar as madrugadas com um livro ou jornal sobre
o peito. Kika pede atenção, subindo sobre o corpo de Léa e empurrando
com a cabeça o volume que a idosa segura nas mãos.
– Kika, a mãe tá lendo... Agora não – avisa a aposentada.
Kika adora o colo da dona - Jefferson Botega / Agencia RBS
A gata dá meia-volta e se acomoda junto aos pés da cama. Instantes depois, tenta outra vez.
– Kika, eu já disse! Eu tô lendo.
Ela confessa que, na terceira tentativa, fica com pena e deixa a gata ficar.
– A Kika entende tudo que eu digo – garante, orgulhosa.
Quando
está assistindo à novela, Léa por vezes recebe um abraço: Kika enlaça
seu pescoço, com uma pata de cada lado, e repousa a cabeça no ombro da
dona. Tanto carinho, na opinião da idosa, parece guardar uma mensagem
implícita.
– Acho que ela sente que a hora dela está chegando. Ou a minha. Antes ela não era assim.
Léa
conta que a gata de uma amiga viveu até os 21 anos. Comenta também que
sua família tem mais de um exemplo de longevidade – sua avó materna
faleceu aos 99 anos. A matemática dos afetos a deixa pensativa:
– Eu falo com o homem lá de cima e peço para Ele me levar antes dela. Não quero vê-la morrer.
Pessoas com 60 anos ou mais já passam a integrar o grupo da terceira
idade no Brasil. E como sabemos, essa faixa etária passa a contar com
vários direitos, como a isenção de pagamento de algumas taxas ou
descontos, por exemplo, tudo para garantir a elas um envelhecimento
saudável, com respeito e sem grandes preocupações.
Porém, mesmo com o Estatuto do Idoso em vigor desde 2003 (Lei nº
10.741/2003), muitas pessoas mais velhas e familiares não têm ideia de
tudo o que essa lei garante Portanto, no conteúdo de hoje separamos 7
benefícios e gratuidades, que vão além do conhecido atendimento
preferencial junto aos órgãos públicos e privados:
1. Desconto em eventos culturais
Maiores de 60 anos têm direito a pelo menos 50% de desconto em eventos
esportivos, culturais, artísticos e de lazer. As regras variam de acordo
com cada município e estado, mas em geral, basta apresentar um
documento de identidade na bilheteria dos locais
2. Transporte urbano gratuito
Esse benefício é para pessoas com mais de 65 anos, sendo que em alguns
municípios valem a partir de 60 anos para mulheres. Este benefício diz
respeito ao direito a transporte urbano e semiurbano gratuito, tanto em
ônibus quanto em trem ou metrô
Além disso, pessoas mais velhas que dirigem seus veículos têm
direito a 5% das vagas dos estacionamentos públicos e privados
exclusivos para maiores de 60 anos. A autorização especial para esse
estacionamento deve ser solicitada junto ao órgão executivo de trânsito
do município.
3. Transporte interestadual
Para viagens interestaduais, as frotas de ônibus, trem ou metrô devem
reservar duas vagas em cada veículo para o transporte gratuito de
pessoas acima de 60 anos que tenham renda igual ou inferior a dois
salários mínimos. Caso essas vagas já tenham sido preenchidas, a pessoa
mais velha tem direito a desconto de 50% no preço das passagens
É preciso apresentar um documento com foto e comprovante de renda
no guichê de venda de passagens da empresa. Caso não tenha como
comprovar a renda, deve requerer a gratuidade junto à assistência social
do município
4. Isenção de Imposto de Renda em alguns casos
Portadores de algumas doenças (como Aids, câncer, Mal de Parkinson,
cardiopatia, etc.) e que recebem pensões e aposentadorias têm direito à
isenção do Imposto de Renda sobre esses rendimentos.
Nesse caso, deve-se comprovar à fonte pagadora que tem a doença
apresentando laudo emitido por serviço médico oficial e, dessa forma, a
fonte pagadora deve parar de reter o imposto na fonte
Todas as regras e a lista completa das doenças que asseguram essa isenção estão no site da Receita Federal.
5. Isenção do IPTU
Esse benefício vale para alguns municípios brasileiros, por isso deve-se
consultar a prefeitura de cada cidade. Em São Paulo, por exemplo, tem
direito os aposentados, pensionistas e beneficiários de renda mensal
vitalícia, desde que não tenham outro imóvel no município, que utilizem o
imóvel como residência e que tenham renda de até três salários mínimos
mensais.
6. Prioridade em processos judiciais
Pessoas com mais de 60 anos que são parte em processos ou procedimentos
judiciais devem ter prioridade em qualquer instância. Nesse caso, o
advogado deve fazer um requerimento pedindo a prioridade na tramitação
É preciso ficar muito atento quanto a esse direito,
principalmente se o processo estiver ligado a recebimento de dinheiro,
por exemplo. Não é incomum os direitos de pessoas com mais idade serem
feridos em casos como esse.
7. Plano de saúde sem reajuste
O Estatuto do Idoso diz que não pode haver aumento do valor do plano de
saúde quando a pessoa completar 60 anos, exceto os permitidos pela
Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) a cada ano
Para contratos posteriores a 2003, os aumentos são feitos por
faixa de idade até a pessoa completar 59 anos. Depois dos 60, o valor
não pode mais subir. Para contratos até 2003, as operadoras cobram
valores maiores para a terceira idade, mas segundo entendimento do STJ, a
regra também vale para estes contratos e, nesse caso, deve-se entrar
com ação judicial para obter o direito a pagar valor menor e receber os
valores pagos a mais de volta.
Esses foram apenas alguns exemplos de benefícios e gratuidades
para os idosos assegurados no Estatuto do Idoso. Então, não deixe de
ficar por dentro das notícias sobre esse assunto e fazer valer os
direitos dos membros da terceira idade de sua família e comunidade.